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17 de novembro de 2010

Análise da Obra: A Outra Volta do Parafuso, Henry James

 

Henry James nasceu em Noya York, em 15 de abril de 1843. Sua família vivia em Washington Square, elegante bairro da cidade, onde o garoto passou os primeiros anos de sua infância com seus irmãos, entre eles, William James, filósofo que viria a ser conhecido como fundador do pragmatismo. O ambiente familiar era declaradamente cosmopolita: o pai do escritor, que também se chamava Henry, era um intelectual muito rico - herança de avô que prosperara comercialmente - e acreditava que uma boa educação seria dada pelo contato com o mundo.

No círculo de amigos de seu pai, figuravam os filósofos Ralph Waldo Emerson, Henry Thoreau e o romancista William Thackeray. Ainda pequeno, o jovem Henry partiu para a Europa, onde passou muitos anos estudando em escolas na Inglaterra, França, Genebra e Roma. Durante esses deslocamentos pelo Velho Continente, o menino aproveitava todo tempo livre para ler, devorando bibliotecas, criando um gosto particular por autores como Honoré de Balzac, George Elliot e Nathaniel Hawthorne, que teriam grande influência em sua literatura inicial. Aos 19 anos, de volta à terra natal, James entrou para a Harvard Law School, mas o direito não era sua paixão verdadeira, e aos poucos o autor foi direcionando a vida para seu grande destino: a literatura.

Aos 22 anos, publicou seu primeiro conto, "A Tragedy of Error", e a partir desse momento se dedicaria apenas à literatura. Segundo conta o escritor Fernando Sabino, que traduziu um de seus contos mais geniais, "A fera na selva", quase nada aconteceu na vida do escritor - nada de especial, de excepcional. Mas ele destaca um acidente nas costas, que teria impedido James de se alistar para combater na Guerra Civil (1861-1865) - dois de seus irmãos mais novos se apresentaram e participaram da guerra, um deles salvando-se por um triz durante um combate. E isso, diz Sabino, fez com que Henry James se refugiasse, para sem­pre, na literatura: seu grande combate se deu com as estruturas narrati­vas, o autor foi um dos grandes inventores do flash-back e da narração indireta.


 É ao pé do fogo que Outra volta do parafuso começa. Um grupo de amigos, numa vés­pera de Natal, conversa e relata casos fantásticos, histórias de ar­repiar e dar medo. Um dos par­ticipantes dessa reunião, um tal Douglas, instigado pelo que ou­vira dos amigos, resolveu tirar da gaveta uma narração muito mais arrepiante do que todas as que eles tinham ouvido naquela sala. De­pois de escutar algumas histórias, como a do fantasma de Griffin, que aparecera a uma criança, ele revelou que a sua seria mais emo­cionante: "Se uma criança aumen­ta a emoção da história e dá outra volta ao parafuso, que diriam os senhores de duas crianças?". O clima de suspense não pode­ria ser maior. Com esse diálogo, Henry James praticamente cola o livro na mão do leitor. No en­tanto, todos terão de esperar um pouco pelo tão esperado relato, pois Douglas manda buscá-lo em sua casa, que fica em outra cidade. Sim, tratava-se de uma narrativa escrita, um documento que ele recebera da preceptora de sua irmã, que vivenciou o que será contado.

Quando o manuscrito chega, a história muda de narrador. Ago­ra, quem conta o assombroso episódio de duas crianças e dois fantasmas é a jovem governanta, de 20 anos, enfrentando seu pri­meiro trabalho. Filha de um pá­roco rural, ela seguiria a carreira de preceptora. Um dia, encon­trou um anúncio no jornal. Um homem milionário, sem nenhu­ma paciência para com crianças, procurava alguém para cuidar da educação de seus dois sobri­nhos, Flora e Miles. Eram filhos de seu irmão militar, que havia morrido com a mulher na índia. As crianças moravam em Bly, uma residência da família, no interior, com uma criada, Mrs. Grose. Miles, em idade escolar, tinha acabado de ser expulso da escola por motivos misteriosos.

Os dias em Bly seriam esplên­didos se não fossem os fantasmas de Peter Quint, ex-mordomo da casa, que tinha grande afeição por Miles, e da senhorita Jessel, a ex-preceptora, que morrera logo depois de deixar a casa. A jovem governanta começa a vê-los em vários lugares, como no alto da torre da casa, atrás de uma vidraça ou na escada em caracol. Ela tem essas visões e comenta com Mrs. Grose, que, ao escutar seu relato, reconhece os dois antigos empre­gados e passa a contar a relação deles com as crianças. Para a nar­radora, eles estão ali para se apos­sar das crianças e encaminhá-las para o mal. Como um detetive, ela vai investigando cada aparição, as reações das crianças, que pare­cem ser ambíguas, o motivo que fez Miles ser expulso da escola, etc. Ela age, em outras palavras, com todos os instrumentos da razão investigativa, para des­cobrir, porém, algo que escapa ao mundo racional e adentra o mundo das lendas de terror. Essa parece ser a mola propul­sora do romance, girando entre o racionalismo e o inexplicável, o que tem sua raiz no mito.

James tinha exata noção do que estava fazendo. Inicialmente criou uma narrativa de entretenimento, para o leitor se deleitar com a história. O livro, de fato, nasceu de uma encomenda de uma revista feita por uma empresa comer­cial para ser distribuída no pe­ríodo das festas, que ia do Natal ao Dia de Reis. O autor logo se lembrou de um serão na casa do bispo de Canterbury, quando este lhe contou uma história de duas crianças assombradas por fantas­mas, muna situação similar à do romance. James sabia que havia ali uma narrativa em estado puro, pronta para ser reaproveitada por um escritor e pesquisador das formas literárias como ele. E foi o que fez, percebendo que ali exis­tia algo do conto de fadas puro e simples - "salvo, com efeito, pelo fato de não ter despontado de uma credulidade espontânea e sem limites, mas consciente e cul­tivada", como escreveu em seus comentários ao romance.

O autor soltou, mas não intei­ramente, a corda da imaginação ao criar fantasmas diferentes de todos os que existiam na literatura até então, ao colocar duas crianças lindas e inteligentes, que gostavam de fazer encenações teatrais com sua governanta, no centro da ação e ao entregar a narrativa para uma jovem mulher, encantada com o homem que a contratou, com as crianças que teria de cuidar quase como uma mãe, suscetível à vida das crenças populares e, ao mes­mo tempo, racional e culta. Tudo é belo na construção do livro, todos os elementos alimentam a imaginação do leitor.

Como em muitas obras de James, Outra volta do parafuso parece driblar a possibilidade de uma leitura fechada, única. Como dizia Jorge Luis Borges, Henry James era mestre em criar "situações deliberadamente ambíguas e complexas, capazes de indefinidas e quase infinitas leituras. Eram livros, dizia escritor argentino, para o moiroso deleite da análise.

O núcleo central do romance é com­posto de poucos personagens: a narradora, Mrs. Grose, criada da casa, as crianças (Flora e Miles) e os dois fantasmas (Peter Quint e srta. Jessel). Há um outro ain­da, que passa rapidamente pelo romance, mas permanece do começo ao fim como uma som­bra, ou ainda, como um fan­tasma real, o tio das crianças, homem muito rico, solteiro, galanteador, que contrata a governanta com um estranho pedido: que ela jamais o inco­mode, em momento algum. Não importa o que acontecer, ele quer ser poupado.

Sua imagem atravessa o livro como um enigma sem solução; o mesmo enigma que o leitor aos poucos vai encontrando nas crianças, mas que é afasta­do pela pureza infantil. Se não for esticar demasiadamente a corda de um romance escrito com a intenção de entreter o leitor, esse enigma poderia ser o de classe social: os três per­sonagens estão na mesma es­fera de poder. Eles mandam e não podem ser contestados em seu poder de mando. É a lei dos mais ricos. Tanto é que quando a própria preceptora, por sua posição, tenta cruzar esse limi­te, o jovem Miles alerta sobre as diferenças que os separam socialmente.

Chega a ser interessante pensar, por essa via, que os dois fantasmas são de ex-em-pregados da casa, atraindo as crianças para o mundo deles. Cabe à nova governanta man­ter a ordem, para não deses­tabilizar a vida dessa estranha família. No jogo intenso de contradições, ela tem de man­ter a ordem de uma família que, afinal, já não existe en­quanto família, já se esfarelou na vida moderna. Mantém as propriedades, o dinheiro, o prestígio, mas não encontra mais unidade. Não caberia aqui comentar o final do ro­mance, outro enigma, ou ou­tra torção no parafuso, lança­do por James no caminho do leitor. Mas ainda se pode pen­sar num possível delírio da narradora, no seu afã de man­ter a ordem estabelecida e, de certa forma, não participar de sua própria classe social, a dos assalariados.

o resultado obtido por James em suas narrativas é sempre nuançado, "pois um personagem, através de seu en­tendimento e de sua visão, não é capaz de iluminar o quadro inteiro, mas tão somente par­te dele. Vastas zonas afundam, assim, nas sombras - e, nesse terreno sombrio,  instalam-se a ambiguidade, a incerteza, a desconfiança e a dúvida". E nessa sombra de difícil des­linde que o leitor penetra ao ler essa narrativa. E nela en­contra o prazer de se envolver numa história que é de assom­bro, causa medo e terror, mas que, como um fantasma, está no liame entre dois mundos: o do realismo, com suas relações diretas com a experiência so­cial inglesa, e o do puro voo da imaginação popular.

11 de novembro de 2010

Análise da Obra: O Morro dos Ventos Uivantes, Emily Brontë



Detive-me durante semanas a imaginar o que diria aos leitores sobre esta obra, principalmente por que dela não posso me privar o direito de indicar e por se tratar de um dos romances mais profundos e belos do qual já tive conhecimento.

O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë figura na atualidade por constar na lista de livros preferidos por uma personagem do romance de Stephenie Meyer, Crepúsculo, série de grande aceitação do público Teen, porém desta informação só obtive conhecimento depois que li o livro.

Um ano antes de sua morte, em dezembro de 1848, a jovem Emily Brontë em dezembro de 1848, a jovem Emily Brontë, sob pseudônimo de Ellis Bell, publicava seu único romance, Wuthering Heights, que em português tornou-se conhecido com o titulo de O Morro dos Ventos Uivantes. Ela tinha quase 30 anos quando o livro saiu e uma experiência de vida marcada pela introspecção, pelo silêncio e pela timidez. Era uma jovem bonita mas que - até onde se sabe - não chegou a ter vida amorosa. No entanto, escreveu, em 1847, um romance desconcertante, uma obra de intensa dramaticidade, considerada uma das maiores do romantismo inglês.

Para George Bataille (1998) Emily parece ter sido entre todas as mulheres objeto de uma maldição particular. A sua vida curta só moderadamente foi infeliz. Mas, embora intacta a sua pureza moral, teve uma experiência profunda do abismo do Mal. Ainda que poucos seres tenham sido mais austeros, mais corajosos, mais retos, ela foi até ao fundo do conhecimento do Mal.

É Interessante compreender a natureza do Mal no romance de Brontë e perceber de que maneira essa jovem, criada em um ambiente religioso e austero pelo pai, vigário de Howarth, lugar isolado em Yorkshire, conseguiu tocar tão fundo a essência da maldade e do sadismo.

O leitor tradicional do romance pode resumir o enredo de O morro dos ventos uivantes a uma historieta de amor mal-resolvido, no seu extremo, um amor impossível, que persevera depois da morte da heroína, Catherine Earnshaw, e se torna centro irradiador do horror nas mãos do apaixonado Sr. Heathcliff. Mas, de fato, como sempre em um romance como este, é pouco. Há nele tantas tonalidades, tantas possibilidades de leitura, que as páginas se abrem para um universo complexo e de beleza ímpar. Bataille (1998) lembra que o "destino que, segundo as aparências, quis que Emily Brontë, embora bela, ignorasse completamente o amor, quis também que tivesse da paixão um conhecimento angustiado: esse conhecimento que não liga apenas o amor à claridade, mas à violência e à morte - pois que a morte é aparentemente a verdade do amor. Como também o amor é a verdade da morte".


Ilustração de Heathcliff


Emily vinha de uma família em que, como disse o crítico Otto Maria Carpeaux, todos tinham ao que parece, "capacidades geniais". A obra de Emily se destacou, em relação à das irmãs, ao longo dos anos e de releituras como uma estrela solitária, de beleza incomum. Segundo afirma Carpeaux (2008) "o problema dessas obras-primas estranhas, escritas por moças sem experiência literária nem experiências vitais, nunca será provavelmente resolvido por completo". Exagero ou não do crítico, de fato o livro de Emily parece ter brotado de uma vivência reclusa, introspectiva, de uma leitora apaixonada e de uma mulher com uma intuição e senso de observação além do comum em sua época.

Uma história de amor é uma história de amor - e aí não é preciso ter nenhuma intuição maior para relatá-la - mas a vereda violenta e ao mesmo tempo poética por que segue a narrativa só revela uma autora bastante sensível para captar o clima de sua época no ar e fixá-lo nesse todo inventivo que é um romance. Pode-se até dizer que há algo inverossímil na sua fabulação, no entanto, ela não despreza as regras do romance burguês - então um gênero novo, de apenas cem anos -, penetrando, com sutileza, nas camadas obscuras e complexas de seus personagens, fugindo de qualquer amarração estereotipada, que separaria, com rigidez moralista, os campos do Bem e do Mal.

Quase toda a narração sai da boca de uma criada, Nelly Dean, personagem envolvida com as duas famílias que polarizam o romance: os Earnshaw e os Linton. No entanto, o começo do romance está nas mãos do narrador, Sr. Lockwood, que aluga a casa de Trushcross Grange, originalmente da família Linton, agora administrada pelo Sr. Heathcliff, que mora perto, em Wuthering Heights. O próprio narrador explicará que o termo "Wuthering'' é um provincianismo, "que descreve o tumulto atmosférico a que este local está sujeito em época de tempestades". E é nessa casa que a história se situa.

Lockwood, espantado com a rude recepção do proprietário quando lhe faz uma visita de cortesia, acaba entabulando conversa com a criada que está a sua disposição na casa que alugou Nelly, ou Eilen, como também é chamada. Ele quer obter mais informações, e é ela que passa a relatar, com minúcias, a história das duas famílias e de Heathcliff, garoto que o Sr. Earnshaw encontrara faminto e abandonado nas ruas de Liverpool. O pai de Hindley e de Catherine chegou em casa com o menino, que acabou recebendo o nome de um filho anterior, que morrera ainda na infância.

Com todas as prerrogativas de filho, Heathcliff começou a ser bem cuidado e mimado, detonando um ciúme enorme em Hindley, que se sentia desprezado pelo pai. Catherine, de sua parte, tornou-se próxima do menino, e os dois viviam pelas charnecas, correndo e brincando, numa vida selvagem e sem regras. Uma espécie de idílio da infância. Mesmo depois, quando, com a morte do pai, Hindley assume a casa e espezinha o irmão adotado, tornando-o quase que um criado, Cathy continua ao lado de Heathcliff. E é esse amor que será a mola propulsora do romance. Diante da rudeza do amigo, ela prefere se casar com Edgar Linton, o vizinho rico, educado e de modos refinados, de Trushcross Grange.

Heathcliff, que a ouve dizer que jamais se casaria com ele, mesmo reconhecendo o amor que sentia, foge de casa e passa três anos fora. Catherine sofre por causa dessa ausência, pois reconhece o amor que sente, apesar de considerar a união entre os dois impossível. Ao voltar, Heathcliff quer, de qualquer modo, vingar-se de Edgar. Sente-se traído por Catherine, que trai, na verdade, a infância dos dois, a vida selvagem que levavam. Para Bataille (1998) em seu ensaio, ela traiu "o reino absolutamente soberano da infância, ao qual pertencia com ele de corpo e alma". No entanto, ele, agindo sempre de forma sádica, quer se vingar de Edgar.

Quando Catherine morre, de tuberculose, ele foge e se casa com Isabella, irmã de Edgar. Não por amor, mas por vingança, pois logo começa a castigá-la como um verdadeiro torturador. É o que também fará com Hindley, que, após enviuvar, abandona a educação do filho, Hareton, e passa a jogar e a beber morbidamente. Perde no jogo, se endivida, e Heathcliff acaba ficando com sua propriedade e todos os seus bens. O sadismo, como lembra Bataille, é o gozo "da destruição contemplada", "é o verdadeiro Mal; se mata por uma vantagem material, não é o verdadeiro Mal". E Heathcliff vive atormentado pela vingança c o pelo amor de Catherine, já morta.

O leitor, obviamente, tende a odiar o monstruoso Heathcliff e sua tortura incessante aos moradores da casa, todos arrastados por sua violência. No entanto, há momentos de intenso lirismo, que faz a balança pender um tanto e nunca parar apenas de um lado. Não haverá perdão à maldade de Heathcliff, mas Emily Brontë joga com a cisão inicial, a fratura no ambiente doméstico e burguês, com a entrada de um menino de rua, abandonado e faminto - algo que, simbolicamente, desestabiliza o fundamento em que se apoiava essa burguesia, com toda a sua cultura ornamental e dita racional.

Como diz Bataille (1998): "não há na literatura romanesca personagem que se imponha mais real e simplesmente que Heathcliff; ainda que encarne uma verdade primeira, a da criança revoltada contra o mundo do Bem, contra o mundo dos adultos, e, pela sua revolta, sem reservas, votado ao partido do Mal".

Porém o centro irradiador da ação do romance é a relação afetiva entre Heathcliff e Catherine, que vai se tornando a grande tormenta. Heathcliff e Catherine têm uma característica peculiar. Em vez de suas emoções habitarem os personagens, rodeiam-nos como nuvens tempestuosas, gerando os trovões que enchem o romance desde o momento em que Lockwood sonha com a mão na janela até o momento em que Heathcliff, junto à mesma janela aberta, é encontrado morto.

Esse amor, que é um verdadeiro tumulto, que é tempestuoso, toma conta de todo o romance e de todos os personagens; todos têm de sofrer a impossibilidade amorosa dos dois jovens - algo que lança sua raiz numa diferença de origem social e que, com o passar do tempo, torna-se um abismo e uma maldição. É algo que se irradia e vai apanhar Joseph, o criado da casa, homem profundamente religioso e ambíguo; que captura Hindley, irmão mais velho de Catherine, e seu filho desprezado, Hareton; que destrói Edgar Linton e sua irmã, Isabella; que massacra o jovem Linton, filho de Isabella e Heathcliff, que morre ainda jovem, usado pelo pai até o limite do insuportável e sufocado por toda essa tempestade; e que atinge ainda a bela Catherine Linton, filha de Edgar e Catherine Earnshaw, a quem caberá ao final a reconciliação entre o mundo rude e o culto, entre as duas casas nas charnecas.

Uma obra prima que do inicio ao fim cativa a cada linha, palavra por palavra, nos tocando o coração e a sensibilidade. Heathcliff e Catherine são as personificações do mais belo e ao mesmo tempo o mais terrível que se possa esperar do amor. Capaz de invocar o espírito da amada para cruéis e infindáveis somente pelo prazer de uma lembrança; que leva este amor aos mais ilimitados ódio, se desprende de toda a vida, abre mão do céu pois a vida reside ao lado do amor. É um romance que ressalta, ao invés de outros, os defeitos perversos de seus principais personagens, Heathcliff vingativo e cruel, Catherine orgulhosa e mimada, e desses defeitos se geram os tempestuosos conflitos sentimentais que se arrastam por todo o livro. Indicado a todos os públicos espero que todos leiam esta primorosa história.



REFERÊNCIAS

BATAILLE, Georges. A Literatura e o Mal. Lisboa: Vega, 1998. 186 p.

CARPEAUX, Otto M. História da Literatura Ocidental. Brasília, DF: Senado, 2008.

5 de novembro de 2010

Análise da Obra: O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde




Considerada uma das maiores obras do Oscar Wilde, único romance deste autor. A obra retrata a corrupção dos valores da sociedade cuja estética é um dos fatores primordiais quando se almeja ter sucesso. Atualmente, este demasiado valor a beleza parece ser mais acentuado conquanto o indivíduo não seja julgado plenamente por sua capacidade e sim Dorian pelo seu modo de vestir e de falar, se é gordo ou magro, se tem cabelos loiros ou castanhos, se é branco ou negro.

O livro nos mostra estas vertentes. Dorian Gray é um jovem exemplar, não por sua conduta obviamente réproba mas pela beleza do seu rosto e de sua juventude. O personagem não dá crédito suficiente a esta beleza, ou não tanto, até conhecer Lord Henry que lhe esmaga com suas teorias e valores contrários a moralidade da época, mostrando sua profunda tristeza por que toda a beleza que Dorian aspirava estava sujeita ao tempo e se perderia com o passar dos anos. Dorian é confrontado através do seu retrato pintado pelo amigo e confidente Basil Hallward. Percebendo o quão perene são todas as coisas e conseguintemente ele mesmo Dorian amaldiçoa a ação inevitável do tempo que imprecará máculas em sua face perfeita, deixará cansados seus olhos vivos, decrépito seu corpo viril e jovial. Absorto nestes pensamentos Dorian faz um pedido: sua alma para que o quadro envelhecesse em seu lugar.

Marcado pelo profundo desejo de permanecer incólume em seu corpo, o retrato, fruto da profunda admiração de Basil por ele, toma para si todas as conseqüências dos atos de Dorian, funcionado como inquisidor da própria imagem, de maneira que Dorian desenvolve um medo mortal deste segredo (tão logo percebe que o retrato incorpora todas as imperfeições estéticas que deviam ser dele).

Seu retrato é sua própria alma, antes intocada e pura, gentil e doce, digna de todas as aprovações mas no decorrer da história fica decrépita de modo que suas semelhanças com o personagem são cada vez mais distintas. O quadro reflete tudo aquilo que Dorian despreza e ignora e serve como inquisidor de modo a confrontá-lo em a verdade absoluta e imperturbável.

Apoiado no falso sentimento de segurança, acreditando estar acima dos próprios pecados, Dorian se corrompe a ponto de ser evitado pela sociedade que lhe condena todos os atos. Por fim, com medo e precisando de alguém com quem partilhar seu segredo, ele acaba tornando seu amigo um confidente da terrível maldição que lhe mantém incólume e deste ato para seu final trágico temos uma viagem entre uma admiração e um assassinato.
 
Dorian é indicado para quem quer outra visão sobre conceitos tão presentes na vida cotidiana, como a beleza e o que é aceitável na   vivência social.

27 de outubro de 2010

Análise da Obra: Eu, Robô de Isaac Asimov



Quantos de nós pensamos equivocadamente que a idéia de um mundo interativo entre humanos e robôs é nova? Quando falamos sobre essa questão temos em vista o Japão e seus crescentes avanços tecnológicos, seus robôs cada vez mais humanos, com expressões mais reais, movimentos buscando a equiparação com a leveza do andar humano, ou seja, um robô nos nossos moldes. O que aconteceria em uma realidade onde a existência humana entrasse em confronto ideológico com a destes seres? Até onde poder-se-ia afirmar que um robô tem existência própria?

Pois foram a estas questões  que o escritor Isaac Asimov (1920 – 1992) dedicou parte de suas obras. Isaac Asimov nasceu em um gueto (Petrovichi) da cidade russa de Smolensk no dia 02 de janeiro de 1920 . Foi com sua família para os EUA em 1923 sendo criado em Nova York no bairro do Brooklyn. O Dr. Asimov estudou na Universidade de Columbia, onde se graduou em 1948; foi professor assistente de Bioquímica na Escola de Medicina da Universidade de Boston. Em 1958, deixou este cargo para se dedicar inteiramente à sua atividade de escritor. O nome deste autor tornou-se familiar no decorrer das últimas décadas, tanto para cientistas como para leitores de ficção-científica. Escritor de enorme talento e assaz prolífico, ostenta um impressionante recorde de mais de cinqüenta sucessos literários no domínio da ficção e da não ficção.

Isaac cansado da limitação literária que se difundiu devido ao clássico de Mary Shelley “O Frankenstein”, onde o homem desafia a morte e cria um ser artificial dotado de inteligência e capacidade, mas que acaba por eliminá-lo em um terrível complexo, onde o ser acaba se revoltando contra seu criador, numa espécie de punição por tentar imitar a Deus.

Pois esta chamada “Teoria Frankensteiniana” influenciou vários autores antes de Asimov, tornando a literatura repetitiva e sem muitos horizontes. Farto desta idéia Isaac Asimov propôs escrever algo diferente, que mudasse essa visão.

Neste livro, dividido em 9 contos, Asimov percorre a estória da robótica na humanidade apoiada sobre três pedras fundamentais, as três leis da robótica:

1- Nenhum robô pode ferir um ser humano, nem permitir que sofra, por inação, qualquer dano;
2- Um robô tem que obedecer às ordens que lhe forem dadas pelo ser humano, a menos que contradigam a primeira lei;
3- A obrigação de cada robô é preservar a própria existência, desde que não entre em conflito com a primeira ou a segunda lei.
Alicerçando-se nestas afirmativas Asimov demonstra as várias reações dos robôs que muitas vezes parecem figuras metafóricas de algum preconceito que hoje vivemos.

O primeiro conto, intitulado “Robbie” narra a história de um robô sem voz, tendo de sofrer o ostracismo de uma sociedade que vê na ascensão maior dos robôs a perda da autonomia. Robbie tem a função de ser um robô-babá de uma garotinha. Afeiçoada a ele ela deixa de lado amigos humanos para desfrutar de sua companhia e então sua mãe percebe nisso uma “ameaça”. Um robô não pode ser amigo de um humano, esta é a grande afirmação que se dissolve no decorrer da narrativa.

“Brincadeira de Pegar” é o conto subseqüente, capaz de mostrar como uma máquina se perde entre as considerações de ser ou não ser, Speedy dividido entre a segunda e a terceira lei, não é capaz por si só de escapar da inevitável ordem recebida e a auto-proteção exigida sendo necessária a intervenção externa de Powell e Donavan que lhe tira da incógnita em que se debatia.

“Razão” narra a estória de Cutie um robô dotado da incrível capacidade da razão, onde este desenvolve a capacidade de análise e racionalização da realidade, acabando por concluir que era superior aos humanos, não devendo a estes obediência mas ainda sim preso a primeira lei. Logo, não podendo admitir que foi criado por um ser “inferior” busca a justificação de sua existência apoiada numa força maior que em seu contexto é o conversor de energia, para o qual ele foi criado. É uma verdadeira análise sobre o homem e Deus.

“Pegar o Coelho” mostra a dificuldade em se lidar de maneira eficiente com várias seres independentes de nós. Dave é encarregado de 5 robôs menores que são considerados parte dele mas mesmo assim possuem uma própria “mente”, sobrecarregado de tensão este não consegue o controle em situações difíceis e “surta” no meio de uma crise. É uma visão sobre o trabalho moderno.

“Mentiroso!” é uma pérola, relata a história de um robô RB-34 de nome Herbie, capaz de se conectar e “ler” pensamentos humanos, na busca de uma equação que explique a anomalia do robô os doutores Alfred Lanning, Peter Bogert, Susan Calvin e Milton Ashe. O problema é que este robô obedece a primeira lei e não pode ferir seres humanos tanto externa quanto internamente e por isso e prega algumas “mentiras” que depois se voltam contra ele em uma ira que o deixa louco. A mentira tem perna curta.

“Pobre Robô Perdido” encontra-se no limite da primeira lei, modificada para modificada para que ele desempenha-se uma função, ele acaba desenvolvendo um complexo de superioridade ao receber uma ordem para desaparecer este se esconde no meio de outros robos do mesmo tipo, trava-se então uma batalha entre a inteligência limitada e a lógica e dedução infinitas.

Fuga! este conto narra uma viagem para o fantástico, uma máquina que não pode assimilar a idéia de morte humana tem de desenvolver uma nave que levará seus tripulantes a morte e a vida.

"Prova" retrata a manipulação da opinião publica através dos escândalos por mais absurdos que possam ser, e a luta entre a cidadania e o sistema de favores e vantagens.

Por fim, "O Conflito Evitável", onde as Máquinas passam a projetar o futuro, eliminando as possibilidades de uma guerra e garantindo sua existência como o melhor para toda a humanidade, onde a primeira lei ganha outra interpretação mais global: "Um robô não pode causar mal a humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal, nem permitir que ela própria o faça."

O livro passa por diversas contradições humanas e as contrapõem numa lógica perfeita. Indicado para todos os públicos, "Eu, Robô" é mais que uma ficção, é um passeio entre possibilidades e uma descoberta nova a cada página. Ensina que nem tudo aquilo que o homem constrói é para sua própria destruição, é a união, não perfeita, pois em um mundo material é impossível, mas uma união equilibrada a partir do tempo e sustentável. Sobretudo, o livro nos ensina que devemos administrar melhor nossos recursos tanto teórico quanto materiais para que a soberania individual não acabe por atropelar e extinguir nossa humanidade.